Os incêndios de junho em Portugal – uma leitura geográfica da catástrofe

Nunca visi­tei Pedró­gão Grande, onde eclo­diu o incên­dio, nem Cas­tan­heira de Pera e Figueiró dos Vin­hos, muni­cí­pios vizin­hos, inte­gra­dos na Região de Lei­ria, igual­mente muito afe­ta­dos pelo fogo – que, entre­tanto, se esten­deu a outros muni­cí­pios, como Olei­ros e Góis.

Este são muni­cí­pios do “Pin­hal Inte­rior”, em que domina a flo­resta de euca­lip­tos e pin­hei­ros. Pos­suem uma limi­tada popu­lação, baixa den­si­dade popu­la­cio­nal, estão em perda de popu­lação, com uma popu­lação extra­or­di­na­ria­mente envel­he­cida – da mais envel­he­cida em Por­tu­gal (Qua­dro 1) e, mesmo, na União Euro­peia.  Enfim, é uma popu­lação com redu­zido poder aquisitivo.

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Nes­tes con­cel­hos repul­si­vos, peri­fé­ri­cos, a flo­resta vai tomando conta das par­ce­las de terra que dei­xam de ser cul­ti­va­das. O facto de terre­nos per­de­rem pas­tos, cereais, hor­tas e pas­sa­rem a ter mato e flo­resta, faci­lita a pro­gres­são dos incêndios.

O incên­dio iniciou-se, apa­ren­te­mente, por cau­sas natu­rais: no sábado houve con­dições anor­mais de tem­pe­ra­tu­ras ele­va­das (mais de 40ºC) e grande secura do ar; o incên­dio terá começado com uma tro­voada seca, em que um raio atin­giu uma árvore, que pegou fogo. Os ven­tos for­tes espal­ha­ram o fogo em várias direções.

Mui­tos dos mor­tos em con­se­quên­cia do incên­dio fale­ce­ram nas suas via­tu­ras: ou na estrada nacio­nal que liga Figueiró dos Vin­hos a Cas­tan­heira de Pera (e aí reside a grande ques­tão deste grande incên­dio, se esta estrada nacio­nal não deve­ria ter sido cor­tada ao trân­sito mais cedo, no pas­sado sábado) e/ou eram habi­tan­tes de peque­nas aldeias ameaça­das pelos fogos, que pega­ram nos seus carros e ten­ta­ram fugir, fre­quen­te­mente com árvo­res incen­dia­das a caí­rem sobre os pró­prios carros. Em geral, sobre­vi­ve­ram as pes­soas que fica­ram nas aldeias, apro­vei­tando os espaços conhecidos.

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No Verão, em Por­tu­gal, são infe­liz­mente habi­tuais estas tra­gé­dias, quando as tem­pe­ra­tu­ras são ele­va­das e a humi­dade redu­zida, como é cara­te­rís­tico do clima medi­te­rrâ­nico. Con­tudo, estes incên­dios são os mais mor­tais de sem­pre no país. Há um pro­blema que é habi­tual­mente recon­he­cido: a falta de orde­na­mento terri­to­rial das áreas atin­gi­das e, em par­ti­cu­lar, de orde­na­mento flo­res­tal. Enquanto a flo­resta se expan­dir sem con­trolo, se apro­xi­mar das popu­lações, sem lim­peza do subs­trato arbó­reo, sem uma vigi­lân­cia ade­quada con­tra incên­dios e sem recur­sos téc­ni­cos e huma­nos sufi­cien­tes para acu­dir aos incên­dios, este drama por­tu­guês ameaça perpetuar-se.

Há muita geo­gra­fia por detrás da atual catás­trofe dos incên­dios em Portugal.

Sér­gio Clau­dino é pro­fes­sor do Ins­ti­tuto de Geo­gra­fia e Orde­na­mento do Terri­tó­rio da Uni­ver­si­dade de Lisboa.

Ficha biblio­grá­fica:

CLAUDINO, Sér­gio. Os incên­dios de junho em Por­tu­gal – uma lei­tura geo­grá­fica da catás­trofe. Geo­cri­tiQ. 10 de julio de 2017, nº 320. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2017/07/os-incendios-de-junho-em-portugal-uma-leitura-geografica-da-catastrofe>.

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