Fluxos e experiências de catadores de materiais recicláveis

[I]ndivíduos que vivem de materiais descartados no lixo são cada vez mais presentes em diferentes cidades do mundo. Podem ser vistos catando de diversas formas, coletando materiais em lixeiras ou jogados nas ruas, em estabelecimentos comerciais e/ou em grandes depósitos de lixo. Torna-se cada vez mais importante compreender as lógicas e ações desses trabalhadores na medida em que se constituem paisagem cotidiana em nossas cidades.

Catador de rua na cidade de Passo Fundo. Abril, 2015.

Catador de rua na cidade de Passo Fundo. Abril 2015.

Os catadores de materiais recicláveis são parte dos fenômenos de reestruturação do trabalho em ordem mundial e de crises econômicas cíclicas do sistema capitalista. Ou seja, de processos intensos de reconfigurações das lógicas de produção e consumo em escala global e, consequentemente, de novas definições das práticas e participações da  mão-de-obra empregada, seja nas indústrias ou no trabalho agrícola. Atribui-se a isso, os fenômenos de migrações e a falta de ocupações laborais a uma parcela populacional expressiva de indivíduos que sofrem as transformações do mercado de trabalho e se tornam responsáveis a ajustarem-se a novas realidades laborais.

No Brasil, dados do Relatório do Instituto de Pesquisa Economica Aplicada destacam que existem 300 mil catadores exercendo esta profissão, sendo apenas 10 por cento deles organizados em cooperativas ou associações de trabalho. Por outro lado, o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) afirma que existem mais de 600 mil catadores distribuídos pelo país, o dobro do que é assinalado pelo IPEA.

De qualquer forma, tudo indica uma crescente expansão desta categoria de trabalhadores no Brasil, seja na forma do trabalho informal, onde os catadores trabalham individualmente, sem registro formal ou carteira profissional assinada, ou compondo grupos cooperados de trabalhadores, muitos deles assistidos por uma rede de técnicos de organizações não governamentais a base de algum financiamento público ou política pontual de governo, seja ele municipal, estadual e/ou federal.

Empreendimento familiar de reciclagem em Passo Fundo. Julho 2015.

Empreendimento familiar de reciclagem em Passo Fundo. Julho 2015.

Há que se considerar, dessa forma, que estes trabalhadores exercem uma categoria emergente e particular nas formas de trabalho. São identificados por alguns governos ou população, em geral, como elementos fundamentais das políticas de revigoramento do meio ambiente e agentes de preservação ambiental; por outros, são considerados sujeitos inexpressivos e marginais que atrapalham a mobilidade urbana e tornam o visual da cidade contrastante e empobrecido. Evidentemente que tais concepções são matizadas por ideologias das formas de se organizar uma  cidade e de sua funcionalidade, isto é, a quem ela se destina precipoamente.

Contudo, os catadores não são meros produtos das estruturas sociais e econômicas, são sujeitos plurais e carregados de disposições sociais amealhadas ao longo de suas trajetórias de vida. Não se limitam apenas a catação de materiais na medida em que são permeáveis a aproveitarem as oportunidades e criar outras possibilidades de atuação na sociedade a partir das relações que desenvolvem nela. Assim, não podemos definí-los apenas como sujeitos precarizados e produto de uma lógica econômica perversa, mas como atores ativos e integrados às sociedades em que vivem e trabalham.

Determinadas práticas de organização do trabalho de catadores vinculados a suas famílias são também uma instituição usada tática e estrategicamente pelos catadores para conformar as suas ações e divisões do trabalho social. Denota-se o quanto as ações dos indivíduos é permeada por delineamentos que estão até mesmo fora da lógica, eminentemente, funcional da atividade laboral que exercem, pois suas ações também correspondem a valores e representações que configuram suas disposições sociais nos fluxos de outras experiências, seja na família, nos grupos comunitários ou nas relações mais amplas que tais atores estabelecem e que ajudam a configurar os espaços de suas práticas e a cidade como um todo.

Para maiores informações:

SILVA, Ari Rocha da. Família e poder nos espaços de trabalho e das trajetórias urbanas. Revista NEP (Núcleo de Estudos Paranaenses) Curitiba, vol. 2, nº 2, p. 447-64, maio 2016. <http://revistas.ufpr.br/nep/article/view/47002>.

Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis <http://www.mncr.org.br/>.

Ari Rocha da Silva é Sociólogo, Doutorando em Ciências Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), São Leopoldo, Brasil.

Ficha biblio­grá­fica:

SILVA, Ari Rocha da. Fluxos e experiências de catadores de materiais recicláveis. Geo­cri­tiQ. 30 de julio de 2017, nº 324. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2017/07/fluxos-e-experiencias-de-catadores-de-materiais-reciclaveis>.

One thought on “Fluxos e experiências de catadores de materiais recicláveis

  1. Estudos que buscam compreender o significado do trabalhador e dos seus sujeitos são imprescindíveis para entender as lógicas e dinâmicas econômicas e socioculturais. Nas cidades “contemporâneas”, o trabalho desses sujeitos da cadeia da reciclagem têm aumentado, trazendo um novo cenário na paisagem urbana e cultural. Uma excelente contribuição para refletirmos os rumos do trabalho e da vida social na cidade.

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