Desigualdades socioespaciais: uma estratégia do mercado imobiliário?

O Bra­sil vem enfren­tando uma grave crise eco­nô­mica e polí­tica nos últi­mos dois anos que afeta os mer­ca­dos, entre eles, o imo­bi­liá­rio. Entre­tanto, esse mer­cado per­ma­nece pro­je­tando um futuro pro­mis­sor, tanto em ter­mos de novos empreen­di­men­tos, quanto dos negó­cios, com pers­pec­ti­vas de incre­mento nas vendas.

Para enten­der essa afir­mação, aponta-se alguns dados da his­tó­ria recente do país. A par­tir de 2003, com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva, líder sin­di­cal e tra­bal­hista, o Bra­sil pas­sou a ser gover­nado por um par­tido de esquerda, o Par­tido dos Tra­bal­ha­do­res. Lula foi reeleito em 2006 e gover­nou até o final de 2010. Nesse período, o país pas­sou por gran­des trans­for­mações, vindo a ser con­si­de­rado como emer­gente no cená­rio eco­nô­mico mun­dial, por meio de inves­ti­men­tos em infra­es­tru­tu­ras (o Pro­grama de Ace­le­ração do Cres­ci­mento – PAC), edu­cação, saúde e a implan­tação do maior pro­grama de cons­trução de mora­dias da his­tó­ria (o Pro­grama Minha Casa Minha Vida – PMCMV, implan­tado em 2009).

Por outro lado, a matriz eco­nô­mica baseada no modelo agroex­por­ta­dor de perío­dos ante­rio­res, não demar­cou super­ação. O setor pri­má­rio apre­sen­tou for­ta­le­ci­mento no agro­ne­gó­cio; oco­rre­ram for­tes inves­ti­men­tos cien­tí­fi­cos e tec­no­ló­gi­cos e a indús­tria da cons­trução civil teve forte incre­mento em vir­tude da polí­tica habi­ta­cio­nal. Essas ini­cia­ti­vas, pas­sí­veis de crí­ti­cas, repo­si­cio­na­ram o país no cená­rio inter­na­cio­nal, mas con­ti­nua­ram com a lógica da repro­dução do capi­tal, sendo insu­fi­cien­tes para a redução das desigual­da­des sociais.

Nas eleições de 2010 e 2014 o par­tido se man­teve no poder, com novas coali­zões, tendo eleito Dilma Rous­seff, a pri­meira mul­her pre­si­denta do Bra­sil. O man­dato foi inter­rom­pido em 31.08.2016 por um pro­cesso de impea­ch­ment que alega cri­mes de res­pon­sa­bi­li­dade. O país pas­sou a ser gover­nado pelo vice-presidente, Michel Temer, do Par­tido do Movi­mento Demo­crá­tico Bra­si­leiro, o grande par­tido do cen­tro fisio­ló­gico, e um dos mais impor­tan­tes no cená­rio polí­tico nacio­nal, com repre­sen­ta­tiva ban­cada na Câmara e no Senado Federal.

O novo governo vem ado­tando uma polí­tica de aus­te­ri­dade, com refor­mas tra­bal­hista e da pre­vi­dên­cia social, cor­tes nos inves­ti­men­tos das áreas de saúde, edu­cação e do pro­grama habi­ta­cio­nal, o qual sofre ajus­tes sig­ni­fi­ca­ti­vos. Enfrenta uma forte tur­bu­lên­cia polí­tica com mani­fes­tações popu­la­res con­tra sua per­ma­nên­cia e a refe­rida polí­tica. Por outro lado, o capi­tal finan­ceiro, os prin­ci­pais gru­pos empre­sa­riais e a grande mídia apoiam o pacote de medi­das con­si­de­ra­das de “moder­ni­zação” do Estado.

O mer­cado imo­bi­liá­rio tam­bém pros­pecta que poderá ser pro­mo­vida a reto­mada do cres­ci­mento eco­nô­mico e da cons­trução civil, com mais finan­cia­men­tos e a con­se­quente ampliação dos negócios.

Segundo os indi­ca­do­res imo­bi­liá­rios de abril 2017, do Informe da Asso­ciação Bra­si­leira de Incor­po­ra­do­ras Imo­bi­liá­rias, o Bra­sil apre­sen­tou, nos últi­mos 12 meses, uma redução de 17,9% das ven­das dos empreen­di­men­tos de médio e alto padrão. Já os empreen­di­men­tos vin­cu­la­dos ao PMCMV apre­sen­ta­ram, no mesmo período, um incre­mento de 13,3% nas vendas.

Tomando por base duas cida­des de porte médio, Passo Fundo e Ere­chim, polos regio­nais do norte do estado do Rio Grande do Sul (Bra­sil), constatou-se a ele­vação dos preços médios dos imó­veis em 2005, 2010 e 2015. Esses preços tam­bém se reve­la­ram extre­ma­mente ele­va­dos, evi­den­ciando o cará­ter espe­cu­la­tivo dos negó­cios imo­bi­liá­rios, fato que favo­rece à exclu­são dos menos favorecidos.

Preço médio dos imóveis (m2) em Passo Fundo e Erechim, RS/Brasil (2005, 2010, 2015).

Preço médio dos imó­veis (m2) em Passo Fundo e Ere­chim, RS/Brasil (2005, 2010, 2015).

Nes­sas cida­des, as habi­tações popu­la­res estão sendo edi­fi­ca­das mas­si­va­mente nas peri­fe­rias, onde os terre­nos são mais bara­tos e as de médio e alto padrão, nas áreas mais cen­trais e valo­ri­za­das. Esse fato mos­tra que o modelo de exclu­são social, comu­mente implan­tado em gran­des cida­des, se repro­duz nas médias e peque­nas cida­des e demarca a con­cen­tração nas áreas cen­trais e a dis­per­são para as periferias.

 

Passo Fundo, RS/Brasil: cidade concentrada e dispersa.

Passo Fundo, RS/Brasil: cidade con­cen­trada e dispersa.

A cidade passa a ser um dos prin­ci­pais lócus da repro­dução do capi­tal, pois o mer­cado imo­bi­liá­rio busca retro­ali­men­tar seus gan­hos, criando estra­té­gias que bali­zam o mer­cado nos perío­dos de arre­fe­ci­mento, com a fina­li­dade de atrair inves­ti­do­res, não de suprir a demanda por mora­dia. Tais estra­té­gias aci­rram o abismo das desigual­da­des e aumen­tam o número de famí­lias em luta pelo direito à mora­dia, mui­tas delas, vivendo em novas ocu­pações dis­per­sas pela cidade.

Para maio­res informações:

SPINELLI, Juçara. Mer­cado Imo­bi­liá­rio e rees­tru­tu­ração do espaço urbano em Passo Fundo, RS. Tese de dou­to­rado. Porto Ale­gre: Uni­ver­si­dade Fede­ral do Rio Grande do Sul, 2015. <http://hdl.handle.net/10183/128037>.

Juçara Spi­ne­lli é pro­fes­sora do Curso de Geo­gra­fia da Uni­ver­si­dade Fede­ral da Fron­teira Sul – UFFS, cam­pus Ere­chim, RS (Brasil).

Ficha biblio­grá­fica:

SPINELLI, Juçara. Desigual­da­des socio­es­pa­ciais: uma estra­té­gia do mer­cado imo­bi­liá­rio? Geo­cri­tiQ. 15 de julio de 2017, nº 321. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2017/07/desigualdades-socioespaciais-uma-estrategia-do-mercado-imobiliario>.

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