Sylvio Bandeira: uma vida dedicada à geografia (1940–2017)

Fica­mos cho­ca­dos com a notí­cia do fale­ci­mento do amigo e colega Syl­vio Ban­deira após grave inter­ve­nção cirúr­gica e suas consequências.

Syl­vio Car­los Ban­deira de Mello e Silva nas­ceu no Rio de Janeiro em 1940. Formou-se em Geo­gra­fia em 1962 pela Uni­ver­si­dade Cató­lica de Cam­pi­nas. Na Fra­nça, onde con­he­ceu Chris­tine, con­cluiu o dou­to­rado em Geo­gra­fia em Tou­louse em 1969, sob a orien­tação de Ber­nard Kay­ser, com a tese L´organisation régio­nale du Recôn­cavo da Bahia / Bré­sil. Em 1971 con­cluiu a Espe­cia­li­zação em Desen­vol­vi­mento Eco­nô­mico ofe­re­cido pela CEPAL. Reali­zou seu está­gio de pós-doutorado na Uni­ver­si­tat Mar­burg, Ale­manha, em 1990.

Veio para Sal­va­dor para par­ti­ci­par do Labo­ra­tó­rio criado por Mil­ton San­tos e Jean Tri­cart. Em 1963 começou a dar aulas na Uni­ver­si­dade Fede­ral da Bahia – UFBA. Em 1975, atra­vés de con­curso, foi o pri­meiro Pro­fes­sor Titu­lar do Depar­ta­mento de Geo­gra­fia. De 1975 a 1979 foi Dire­tor do Ins­ti­tuto de Geo­ciên­cias e de 1979 a 1984 ocu­pou o cargo de Asses­sor do Reitor para assun­tos de Pes­quisa e Pós-Graduação. Aposentou-se da UFBA em 1992, mas con­ti­nuou cola­bo­rando no Pro­grama de Pós-Graduação em Geo­gra­fia até o seu falecimento.

Con­ti­nuou sua carreira, para­le­la­mente, na Uni­ver­si­dade de Sal­va­dor, de 2000 a 2005, pas­sando pos­te­rior­mente para o Pro­grama em Pla­ne­ja­mento Terri­to­rial da Uni­ver­si­dade Cató­lica de Sal­va­dor – UCSAL, desde 2003, e era coor­de­na­dor do pro­grama desde 2009.

Foi pro­fes­sor cola­bo­ra­dor da Pós-Graduação em Ser­gipe desde 1983 e pro­fes­sor visi­tante das uni­ver­si­da­des de Rio Claro, Maringá, Lon­drina, San­tiago de Com­pos­tela e Bar­ce­lona. Era mem­bro do con­selho edi­to­rial das revis­tas Geo­nor­deste; Geo­gra­fia; RDE e Geo­tex­tos.

Foi pes­qui­sa­dor em pro­du­ti­vi­dade de pes­quisa do CNPq, alca­nçando o nível mais ele­vado 1-A, e deve ser des­ta­cado que pre­si­diu a Comis­são de Acom­pan­ha­mento dos Pro­gra­mas de Pós-Graduação em Geo­gra­fia da CAPES (1996 a 1999) e con­ti­nuou como asses­sor ad-hoc da CAPES e do CNPq. Seu pro­jeto de pes­quisa atual era inti­tu­lado “Metro­po­li­zação e interio­ri­zação turís­tica no Brasil”.

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A sua pro­dução aca­dê­mica é imensa: ele publi­cou vinte e dois livros, oito dos quais como orga­ni­za­dor e vinte em con­junto. Podem ser des­ta­ca­dos Estu­dos sobre Glo­ba­li­zação, Terri­tó­rio e Bahia, escrito em con­junto com Chris­tine, em 2003 e Des­equi­lí­brio e Desigual­da­des Regio­nais no Bra­sil e nos esta­dos bra­si­lei­ros, em 2008, com Chris­tine e A. Coelho. Publi­cou cin­quenta e três capí­tu­los de livros até 2016, assim como um ele­vado total de noventa e seis arti­gos em revis­tas nacio­nais e estran­gei­ras até o mesmo ano. Apre­sen­tou tam­bém cento e ses­senta tra­bal­hos em even­tos desde 1966.

Par­ti­ci­pou de oito ban­cas de con­cur­sos para pro­fes­sor titu­lar, uma para livre docente e seis para pro­fes­so­res em Geo­gra­fia. Par­ti­ci­pou tam­bém do ele­vado número de cento e vinte e cinco ban­cas de mes­trado no período de 1991 a 2016 e de trinta e seis ban­cas de dou­to­rado, no Bra­sil e no exte­rior, entre 1997–2016. Tal­vez a maior con­tri­buição de Syl­vio tenha a sido a de orien­tar gerações de geó­gra­fos: qua­renta e três dis­ser­tações de mes­trado (1991–2013); dezes­sete teses de dou­to­rado (1997 a 2016), e oito em anda­mento; e ainda vinte e uma orien­tações na graduação.

Ele me infor­mou do con­curso para titu­lar na UFBA e foi mem­bro da minha banca junto com Mil­ton San­tos. Desde quando come­cei a tra­bal­har na UFBA como colega, fomos com­pan­hei­ros durante trinta anos, em três ins­ti­tuições uni­ver­si­tá­rias. A impos­si­bi­li­dade de visitá-lo no hos­pi­tal, por tam­bém estar doente, me dei­xou a lem­bra­nça do colega e amigo vivo, sem­pre sorri­dente, sem­pre brin­cal­hão, sem­pre inter­es­sado pelos livros. Quando o casal se mudou para um apar­ta­mento, Syl­vio doou sete­cen­tos livros para a biblio­teca da UCSAL, o que mos­tra outra das suas paixões.

Os depoi­men­tos dos ami­gos podem aju­dar a con­cluir essa home­na­gem: Joa­quim Oli­veira fez um belo dis­curso no seu veló­rio, con­tando a che­gada deles na Bahia e as via­gens pela Europa. Quando escrevi avi­sando aos ami­gos geó­gra­fos mais dis­tan­tes, colhi belas men­sa­gens como estas que muito me emocionaram:

Uma pes­soa com raras qua­li­da­des […]: edu­cado, con­ci­lia­dor, um ver­da­deiro caval­heiro” (Mar­celo); “era tão ale­gre […] sem­pre pas­sava a ima­gem de uma jovia­li­dade” (Car­minha); “ele dei­xou um vasto legado atra­vés não só do que pro­du­ziu mas dos tan­tos estu­dan­tes que aju­dou a for­mar” (Haes­baert); “con­heço desde […] 1962. Tinha grande apreço por ele” (Lobato); “demons­trava tanta vita­li­dade” (Bitoun); “tinha muito apreço por Syl­vio” (Leila); “amigo solí­cito, sorri­dente e agra­dá­vel” (Bor­zac­chie­llo); “pude apre­ciar per­so­nal­mente la cali­dad humana y cien­tí­fica que tenía, y el apre­cio del que gozaba de manera gene­ral” (Capel), ou seja, toda uma comu­ni­dade de geó­gra­fos con­he­cia e apre­ciava Syl­vio Ban­deira, que nos deixa uma enorme lacuna.

Syl­vio e Chris­tine tive­ram dois fil­hos, Mau­ri­cio e André, que foram habi­tar no lon­gín­quo estado de Roraima. Do pri­meiro, Mau­ri­cio e sua esposa, eles tive­ram a ale­gria de ter três netos, dois dos quais gêmeos.

Para maio­res informações:

SILVA, Syl­vio Ban­deira de Mello. Boa gover­na­nça muni­ci­pal e metro­po­li­tana no Bra­sil: um direito do cida­dão. Geo­cri­tiQ. 25 de enero de 2016, nº 197. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2016/01/boa-governanca–municipal-e-metropolitana-no–brasil-um-direito-do-cidadao>

VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Pre­fá­cio, a SILVA, Syl­vio Ban­deira de Mello, e SILVA, Bar­bara Chris­tiane M. N. Estu­dos sobre Glo­ba­li­zação, Terri­to­rio e Bahia. Sal­va­dor: UFBA, 2003.

 

Pedro de Almeida Vas­con­ce­los é pro­fes­sor de Geo­gra­fia da Uni­ver­si­dade Fede­ral de Bahía, Salvador-Brasil.

Ficha biblio­grá­fica:

VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Syl­vio Ban­deira: uma vida dedi­cada à geo­gra­fia (1940–2017). Geo­cri­tiQ. 16 de marzo de 2017, nº 294. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2017/03/sylvio-bandeira-uma-vida-dedicada-a-geografia-1940–2017>.

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3 thoughts on “Sylvio Bandeira: uma vida dedicada à geografia (1940–2017)

  1. Pro­fes­sor Pedro, para­béns pela justa home­na­gem ao amigo e colega de pro­fis­são, Syl­vio Car­los Ban­deira de Mello e Silva. Fui seu orien­tando, tendo con­vi­vido com o pro­fes­sor Syl­vio por três anos e meio. O pro­fes­sor Syl­vio pare­cia ter o tempo a seu favor. Recordo-me dos pri­mei­ros encon­tros, ainda no ano de 2013, com o ante­pro­jeto muito inci­piente, o prof. Syl­vio dia­lo­gava comigo, como quem já sou­besse o tempo do ama­du­re­cer. De pou­cas inter­ve­nções, fra­ses bre­ves; porém, pro­vo­ca­ti­vas, era a essên­cia do que deve ser um orien­ta­dor. Prof. Syl­vio deixa para todos nós a ima­gem de um pro­fis­sio­nal inte­lec­tual­mente acima da média, um ora­dor cati­vante e um pro­fes­sor na ace­pção da pala­vra. Mas, guar­da­rei comigo, igual­mente, a figura de um homem sim­ples, diver­tido, ale­gre e aten­cioso. Há um bor­dão que o pro­fes­sor gos­tava sem­pre de usar e que ele inter­ca­lava nas suas aulas de uma forma muito par­ti­cu­lar (nesse momento seu sem­blante mudava, seu tom de voz era ele­vado e alguns alu­nos, menos aten­tos, che­ga­vam a tomar susto, mas ele sem­pre ter­mi­nava com um sorriso amigo e a sala se des­man­chava na risada). Ele que­brava o ritmo de sua fala abrup­ta­mente e, o fazia, em geral, antes de algum tópico que con­si­de­rava mais rele­vante, para dizer algo, mais ou menos, assim: — Peguem o caderno, valendo nota…Vocês tem que ano­tar tudo…! Se não ano­ta­rem, estão repro­va­dos! e fina­li­zava dizendo: Estou brincado…Prof. Syl­vio, obrigado!

    • Pre­zado pro­fes­sor Pedro, para­béns pela home­na­gem ao meu que­rido pro­fes­sor Syl­vio Car­los Ban­deira de Mello e Silva um amigo que cati­vava, um pai exem­plar, um com­pan­heiro cons­tante e admi­rá­vel. Como sua orien­tanda pude con­vi­ver com ele e sua esposa pro­fes­sora Chris­tine por alguns bons anos onde me ensi­nou de forma clara que pre­ci­sa­mos ser gente e apren­der a apren­der sem­pre. Uma pes­soa sim­ples, diver­tida, muito ale­gre mas extre­ma­mente aten­ciosa e gene­rosa. Foi um grande pra­zer poder ter tido a opor­tu­ni­dade de con­vi­ver com ele e tê-lo con­he­cido. Obri­gada por tudo Prof. Sylvio!

  2. Inte­lec­tual vigo­roso, inter­dis­ci­pli­nar, gen­til no trato, de um fino humor entre­meando seu pen­sa­mento crí­tico! Muita falta nos faz e fará!

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