A investigação sobre o Couto Misto, microestado desaparecido entre a Galiza e Portugal, demonstra que a fronteira hispano-lusa não é como nos explicaram

 Aceitou-se como facto irre­fu­tá­vel que Espanha e Por­tu­gal estão sepa­ra­dos por uma fron­teira per­fei­ta­mente fixa. Isso sig­ni­fica que pode­mos pen­sar que os terri­tó­rios de ambos os esta­dos ibé­ri­cos per­ma­ne­ce­ram está­veis ao longo dos sécu­los. Tal ideia está pre­sente em mui­tos livros, arti­gos, fol­he­tos turís­ti­cos ou em decla­rações polí­ti­cas que falam da fron­teira mais velha do mundo. Inclu­si­va­mente, nos últi­mos meses, alguns repre­sen­tan­tes da esfera pública che­ga­ram a afir­mar, rela­ti­va­mente ao atual debate da inde­pen­dên­cia da Cata­lunha, que «Espanha é uma grande nação com 3000 anos de His­tó­ria» ou que «Espanha é a nação mais antiga da Europa, a pri­meira nação da Europa a con­se­guir a sua uni­dade.» Estas fra­ses trans­mi­tem a ideia de que o terri­tó­rio espan­hol não sofreu muda­nças durante sécu­los e de que Espanha não se alte­rou no deco­rrer do tempo. Todas essas afir­mações care­cem de rigor geo­grá­fico e his­tó­rico, e res­pon­dem ao dis­curso do nacio­na­lismo espan­hol ins­ti­tu­cio­na­li­zado. Como qual­quer ideo­lo­gia polí­tica, visa a sua difu­são e a sua iden­ti­fi­cação pelos cida­dãos como «reali­dade obje­tiva e inquestionável».

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Os Estados-nação ten­tam impor a sua tese terri­to­rial como a única válida. Isto silen­ciou vozes que põem em causa a geo­gra­fia e his­tó­ria ofi­ciais, trans­for­ma­das em «ver­dade». Este nacio­na­lismo (espan­hol, mas o mesmo pode ser dito do por­tu­guês) foi absor­vido facil­mente por dife­ren­tes níveis aca­dé­mi­cos. Nós encon­tra­mos evi­dên­cias deste «nacio­na­lismo meto­do­ló­gico em ciên­cias sociais» ― como tem sido deno­mi­nado por mui­tos auto­res ― nos manuais atuais de geo­gra­fia, onde pode­mos ler fra­ses como: «Por­tu­gal é o país da Europa que, como nação, man­tém há mais sécu­los uma fron­teira que se pode clas­si­fi­car de estável.»

Estu­dando o micro­es­tado des­a­pa­re­cido do Couto Misto ― com três aldeias em 25 km2, atual­mente entre os muni­cí­pios de Bal­tar e Cal­vos de Ran­dín (Ourense, Galiza, Espanha) ― pode­mos demons­trar que a fron­teira ibé­rica sofreu alte­rações sig­ni­fi­ca­ti­vas ao longo do tempo. Na ver­dade, não se pode sus­ten­tar que a fron­teira tenha ganho forma de linha detal­hada ― pri­mei­ros nos mapas, com o con­se­quente esfo­rço para demar­car no terreno ― até recen­te­mente, com a apro­vação do Tra­tado de Limi­tes (1864), rati­fi­cado na Ata Geral de Demar­cação (1906). Tra­tado que, aliás, intro­du­ziu alte­rações sig­ni­fi­ca­ti­vas nas per­te­nças terri­to­riais tra­di­cio­nais e que foi rece­bido em mui­tos locais com resis­tên­cia e hos­ti­li­dade. Tam­bém é neces­sá­rio salien­tar que não é pos­sí­vel falar de fron­teira ― enten­dida como limite pre­ciso que separa dois terri­tó­rios ― na Idade Média nem na Idade Moderna.

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Banco do adro da igreja de San­tiago de Rubiás, onde a tra­dição diz que se faziam as reuniões do governo do Couto Misto (Foto­gra­fia de Vale­rià Paül, Maio de 2007).

Tam­bém é duvi­doso que a fron­teira fosse um limite intran­si­tá­vel desde o século XIX, como habi­tual­mente é dito, tendo em conta as relações inten­sas de todos os tipos que têm per­sis­tido ao longo das déca­das: casa­men­tos mis­tos, fes­tas e cele­brações em comum, con­tra­bando, refú­gios, camin­hos e rotas de emi­gração e exí­lio, etc. Cer­ta­mente, depois das dita­du­ras, no final da década de 1970, os con­tac­tos foram rela­nça­dos, prin­ci­pal­mente após a entrada de Espanha e de Por­tu­gal nas Comu­ni­da­des Euro­peias (agora União Euro­peia) em 1986 e a apli­cação do acordo de Schen­gen (1995).

A aná­lise do Couto Misto per­mite de facto ques­tio­nar se, em vez de uma fron­teira que «separa» a Galiza de Por­tu­gal, não esta­re­mos perante um desejo ideo­ló­gico de que tal fron­teira exista. Desejo esse que se mate­ria­li­zou em toda uma retó­rica gerada pelo poder e difun­dida ao longo de déca­das por vias ins­ti­tu­cio­nais do estado, incluindo o sis­tema edu­ca­tivo. Assim, temos cons­ta­tado a exis­tên­cia de dis­cur­sos ten­den­cio­sos desde o século XIX que colo­cam a hipó­tese de o Couto Misto ser ile­gí­timo e de repre­sen­tar um pro­blema; mas seria ver­dade ou inter­es­sava apresentá-lo assim? Nessa época, tam­bém se dis­cu­tia com inten­si­dade se o Couto Misto «era mais Galiza (Espanha) ou Por­tu­gal». De certa forma, a obs­ti­nação aca­dé­mica atual para encon­trar a sua ori­gem tenta, em última aná­lise, elu­ci­dar esta ques­tão. No entanto, é uma dúvida razoá­vel ou, na reali­dade, está a ser pro­je­tada com pre­con­cei­tos con­tem­po­râ­neos para com o pas­sado, o que faria dela extemporânea?

A pre­pon­de­rân­cia do dis­curso do Estado-nação trouxe con­sigo o des­a­pa­re­ci­mento, a nível tan­gí­vel e intan­gí­vel, da exis­tên­cia do Couto Misto. No entanto, Luis M. Gar­cía Mañá começou um pro­cesso de recu­pe­ração da memó­ria desse terri­tó­rio, com a publi­cação de La fron­tera hispano-lusa en la pro­vin­cia de Ourense (1988). Este livro, carre­gado de pes­si­mismo por­que o autor acre­di­tava que o Couto Misto tinha sido per­dido e irre­me­dia­vel­mente esque­cido para sem­pre, foi uma con­tri­buição modesta, mas trans­cen­dente, para o seu estudo. Mais tarde a criação lite­rá­ria teve em conta esses mate­riais pre­sen­tes nesta obra para os pro­je­tar para um público mais vasto, pouco ou nada eru­dito. Deve­mos salien­tar a este res­peito que o texto de Gar­cía Mañá foi publi­cado pelo Museu Arqueo­ló­xico de Ourense, um for­mato com limi­tada dis­tri­buição, mas sem dúvida de que a lite­ra­tura con­se­quente falou mais alto. É neces­sá­rio salien­tar em espe­cial Arraia­nos, de Xosé Luís Mén­dez Ferrín (1991) e A Quinta do Saler, de Antón Riveiro (1999), que têm tido grande acei­tação pelo público galego.

A corrente epi­só­dica pre­se­nça do Couto Misto na imprensa, pro­dução audio­vi­sual, ou nas tele­vi­sões da Galiza e de Por­tu­gal, não se pode dis­so­ciar daque­las obras lite­rá­rias que são, sobre­tudo, pro­du­tos esté­ti­cos. Neste sen­tido, tem sido útil estu­dar o Couto Misto atra­vés de alguns olhos da geo­gra­fia polí­tica, da geo­gra­fia cul­tu­ral ou dos estu­dos pai­sa­gís­ti­cos, aná­li­ses que nos per­mi­ti­ram expli­car as for­mas como atual­mente é repre­sen­tado o Couto Misto. Acre­di­ta­mos que a lite­ra­tura tem sido capaz de criar uma pai­sa­gem que os lei­to­res têm acei­tado, tal facto per­mi­tiu a pro­gres­siva difu­são de uma memó­ria silen­ciada. Neste sen­tido, esta­mos gra­dual­mente a con­se­guir sub­ver­ter a ideia de uma fron­teira entre Por­tu­gal e Espanha está­vel e imu­tá­vel no tempo. Essa fron­teira não é como nos explicaram.

 Para mais informações:

PAÜL, Vale­rià; TRILLO, Juan Manuel: La cons­truc­ción lite­ra­ria de los pai­sa­jes fron­te­ri­zos. Una refle­xión a pro­pó­sito del Couto Mixto (Gali­cia y Por­tu­gal). Docu­ments d’Anàlisi Geo­grà­fica, 2014, vol. 60, nº 2, p. 289–314.

PAÜL, Vale­rià; TRILLO, Juan Manuel: Dis­cus­sing the Couto Mixto (Gali­cia, Spain): Trans­cen­ding the Terri­to­rial Trap Trough Bor­ders­ca­pes and Bor­der Poe­tics Analy­ses. Geo­po­li­tics, publi­cado no site em 9 maio 2014.

TRILLO, Juan Manuel; PAÜL, Vale­rià: The Oldest Boun­dary in Europe? A Cri­ti­cal Approach to the Spanish-Portuguese Bor­der: The Raia Bet­ween Gali­cia and Por­tu­gal. Geo­po­li­tics, 2014, vol. 19, nº 1, p. 161–181.

Juan M. Tri­llo San­ta­ma­ría é Inves­ti­ga­dor de pós-doutoramento no Depar­ta­mento de Geo­gra­fia da Uni­ver­si­dade de San­tiago de Com­pos­tela (Galiza), atual­mente com uma esta­dia de inves­ti­gação no Nij­me­gen Cen­tre for Bor­der Research (Rad­boud Uni­ver­sity, Paí­ses Baixos).

Vale­rià Paül Carril é Assis­tant Pro­fes­sor em Geo­gra­fia e Orde­na­mento do Terri­tó­rio na Uni­ver­sity of Wes­tern Aus­tra­lia (Perth, Austrália).

 

Ficha biblio­grá­fica:

TRILLO, Juan Manuel y PAÜL, Vale­rià. A inves­ti­gação sobre o Couto Misto, micro­es­tado des­a­pa­re­cido entre a Galiza e Por­tu­gal, demons­tra que a fron­teira hispano-lusa não é como nos expli­ca­ram. Geo­cri­tiQ. 25 de sep­tiem­bre de 2014, nº 86. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2014/09/a-investigacao-sobre-o-couto-misto-microestado-desaparecido-entre-a-galiza-e-portugal-demonstra-que-a-fronteira-hispano-lusa-nao-e-como-nos-explicaram/>

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9 thoughts on “A investigação sobre o Couto Misto, microestado desaparecido entre a Galiza e Portugal, demonstra que a fronteira hispano-lusa não é como nos explicaram

  1. Aun­que par­ti­cipo de los comen­ta­rios de ambos auto­res, entiendo que la ter­mi­no­lo­gía no se ajusta a la reali­dad his­tó­rica del Couto, ya que habiendo sido en el pasado un espa­cio de “encla­va­miento”, depen­diente de la loca­li­dad por­tu­guesa de Tou­rém (Paula B. Lema, 1978), carac­te­ri­zado por las pre­rro­ga­ti­vas de sus mora­do­res, admi­ti­das por los dos Esta­dos, y fruto de la loca­li­za­ción de estas aldeas raya­nas, no corres­ponde que sea deno­mi­nado como un “micro­Es­tado”, sin pare­cido alguno a lo que en su misma época fuera Ando­rra, por ejemplo.

    • Bue­nos días,
      Agra­de­ce­mos su inte­rés por nues­tro texto así como el comen­ta­rio rea­li­zado, que desea­ría­mos con­tes­tar a con­ti­nua­ción.
      Noso­tros con­si­de­ra­mos que el tér­mino “micro­es­tado” sí que es acer­tado y per­ti­nente, siguiendo toda la biblio­gra­fía desa­rro­llada en los últi­mos veinte años, por ejem­plo Gar­cía Mañá (1988, 2000) o Sali­nas (2002). Tam­bién las fuen­tes ori­gi­na­les, sin duda Modesto (1907) y el recien­te­mente des­cu­bierto –por el pro­fe­sor Gar­cía Álva­rez– Castro-López (1862), así como en cierto modo Risco (1936), per­mi­ten sos­te­ner tal posi­cio­na­miento, con las debi­das dis­tan­cias que la dia­cro­nía exige.
      De todos modos, como hemos escrito en varias oca­sio­nes en nues­tros tex­tos, no pode­mos apli­car sin desa­rro­llar mati­ces y acla­ra­cio­nes las deno­mi­na­cio­nes, los con­cep­tos y los sig­ni­fi­ca­dos actua­les a reali­da­des pre­té­ri­tas. De hecho, la “inven­ción” del estado-nación se pro­duce pre­ci­sa­mente en el mismo siglo en el que se suprime el Couto. Este texto se titula “micro­es­tado” de forma cons­ciente y defen­de­mos tal posi­cio­na­miento; en todo caso, se trata de un for­mato que pre­tende cap­tar la aten­ción del lec­tor para que lea otros artícu­los con mayor calado y rigor cien­tí­fico de nues­tra auto­ría.
      En cuanto al comen­ta­rio que rea­liza sobre la depen­den­cia del Couto en rela­ción a Tou­rém, hemos de admi­tir que nunca había­mos leído sobre tal hecho, lo que nos sor­prende (¿podría estar con­fun­dida la fuente que cita?). Dicha depen­den­cia se esta­ble­ce­ría en un pasado bas­tante remoto con A Piconha, que actual­mente (y ello en sí mismo es reve­la­dor y curioso) está en Gali­cia.
      Con­clui­mos invi­tán­dole a que lea nues­tros tex­tos aquí rese­ña­dos, que en parte ofre­cen un balance de los dis­tin­tos avan­ces inves­ti­ga­do­res de las últi­mas déca­das. En ellos, dicho sea de paso, se ha refle­xio­nado inten­sa­mente al res­pecto de los pare­ci­dos con Ando­rra.
      Salu­dos cor­dia­les,
      Vale­rià Paül
      Juan Manuel Trillo

  2. Quando me falaram,fiquei fas­ci­nado ‚um paiz que todos teem escon­dido e nem na estó­ria de Por­tu­gal e mencionado

  3. Artigo muito inter­es­sante.
    Rela­ti­va­mente à refe­rên­cia às “fron­tei­ras fixas” recordo que o tema não é muito rele­vante pois a quando da Gue­rra das Laran­jas –1801– e a con­se­quente ocu­pação do termo de Oli­ve­nça — que, e sublinho– o Tra­tado de Ver­sal­hes de 1815 não recon­he­cendo essa ocu­pação, manda que o mesmo termo seja reposto na sobe­ra­nia por­tu­guesa, acres­cento eu, as fron­tei­ras entre os 2 esta­dos foram ile­gi­ti­ma­mente alte­ra­das, pelo que a alte­ração pro­vo­cada pela divi­são do Couto Misto não é em si mesmo relevante

  4. Enten­der o tra­zado da fron­teira implica saber como o terri­to­rio por­tu­gués se des­mem­brou dos reinos de Gali­cia, León e Cas­tela, máis que do domi­nio árabe. Entre o norte de Por­tu­gal e Gali­cia, a fron­teira viría ser demar­cada en resul­tado de unha aven­tura fami­liar trans­for­mada pouco a pouco en von­tade dinás­tica, xa que non había dife­renza cul­tu­ral, de lin­gua ou de reli­xión que levase a unha evi­dente sepa­ra­ción, o mesmo que acon­tece con Cata­láns, Vas­cos e tal vez outros pobos que pre­sen­tan unha iden­ti­dade e con­cien­cia dis­tinta. A fron­teira que, nos finais da idade media (Tra­tado de Alca­ñi­ces de 1297), é enten­dida como un espazo en que pre­do­mina a fun­ción defen­siva, a que se alían esca­sos intere­ses comer­ciais, per­derá ese carác­ter sobre todo mili­tar a par­tir do século XVI, en pro­veito da Facenda. Pre­ci­sase a demar­ca­ción fron­tei­riza a tra­vés do esta­ble­ce­mento de postos adua­nei­ros, coa fina­li­dade de con­tro­lar os trá­fi­cos comer­ciais que se diri­xen o lado oposto. Xurde a crea­ción de “coutos de homi­zia­dos” para des­te­rro dos cri­mi­no­sos en zonas de fron­teira, cola­bo­rando na defensa dos luga­res dos estre­mos, con pri­vi­le­xios varia­dos para fixar mora­do­res e per­mi­tir a defensa. Pode­rían que­dar exen­tos do ser­vizo na gue­rra, de cer­tos encar­gos, che­gando a subor­nar xente do país veciño, e che­gando a con­vi­vir nes­tas mar­xes xudeus, mou­ros, con­de­na­dos e escra­vos, sendo menos inco­mo­da­dos. A crea­ción de coutos, non como lugar de refu­xia­dos cri­mi­no­sos mais de expia­ción de penas, tiña un con­xunto de van­ta­xes para o poder real sobre o terri­to­rio. Nas zonas fron­tei­ri­zas os fuxi­dos eran unha forza demo­grá­fica pro­du­tiva coidando das súas ocu­pa­cións cun esta­tuto de veci­ños.
    Os veci­ños dos Mix­tos par­ti­ci­pa­ban da cul­tura común as terras gale­gas e trans­mon­ta­nas e así o vemos nas cons­tru­cións que nos falan da súa vida cotiá. Muí­ños para o cereal ou par­ti­cu­lar­mente para tabaco, xa que este, aínda que de mala cali­dade, era ven­dido para fora exi­mín­dose as taxas e se con­su­mía en folla ou moído. Forno comu­ni­ta­rio para forrar gasto de leña, nada des­pre­za­ble na eco­no­mía da mon­taña, obri­gando os veci­ños a pórse dacordo para cocer todos xun­tos. Cada casa, cun P (Por­tu­gal) ou cun G (Galiza) ins­crito, pode­ría esco­ller a súa fide­li­dade no momento do casa­mento, erguendo o noivo un copo en honra o monarca do país esco­llido. Atra­ve­sado por unha “vereda pri­vi­le­xiada” . os seus habi­tan­tes esta­ban exen­tos de varias con­tri­bu­cións e de tri­buto de san­gue. Non podían ser alis­ta­dos como sol­da­dos nin ser­vi­ren cal­quera das dúas coroas e podían cir­cu­lar con todos os xéne­ros e facen­das para un e outro lado, pagando o tri­buto de mil dous­cen­tos reis a cada un dos reinos. Nin­gún estraño que alí se refu­xiase pode­ría ser preso ou pri­vado dos seus habe­res. O alcalde ou rexe­dor era electo polos habi­tan­tes, for­mando, polo tanto, unha socie­dade alta­mente comu­ni­ta­ria na que todos os cabeza de fami­lia par­ti­ci­pa­ban no goberno, facendo das terras do Couto Mixto un terri­to­rio, na prác­tica, inde­pen­dente, deci­dían as súas nor­mas e tiñan o seu pro­pio tri­bu­nal.
    Estes derei­tos foron abo­li­dos en 1864 cando os esta­dos espa­ñol e por­tu­gués defi­ni­ron con trazo fino as súas fron­tei­ras. O pro­ceso de deter­mi­na­ción das fron­tei­ras locais pasa por dúas eta­pas, unha pri­meira sobre infor­ma­ción sobre os lími­tes das aldeas, reco­rrendo a mate­riais his­tó­ri­cos e as afir­ma­cións pre­sen­ciais de aldeáns oídos, e outra segunda en que se pro­cura encon­trar eses lími­tes no terreo. Ambas as fases sufri­rán o des­vío que pro­vén de dous idio­mas dife­ren­cia­dos pro­vo­cando equí­vo­cos entre os mem­bros da comi­sión, que son habil­mente usa­dos polos aldeáns dun e dou­tro lado para defen­de­ren os seus intere­ses par­ti­cu­la­res e comu­nais, agora evo­cando a nación de pro­ce­den­cia e facendo así a fron­teira zigue­za­gueante en cer­tos pun­tos, cos intere­ses locais a con­se­guir impor a prio­ri­dade da pro­pie­dade sobre a sobe­ra­nía nacio­nal e ‚aínda así, cer­tas terras per­ten­cen­tes a un veciño de un país que­da­rán inte­gra­das nou­tro, obri­gando a cru­zar a fron­teira para o cul­tivo e para as collei­tas.
    Nesta zona, “marra” é o nome con que se designa os mar­cos que divi­den terras, “de 2 me-tros d’alto por 38 decí­me­tros d’esquadria, lisos, e só tra­bal­ha­dos a picão ate os dous ter-ços da sua altura com as mes­mas letras E. P”. Por tanto unha liña intro­du­cida pola inte­gra­ción en uni­da­des polí­ti­cas dis­tin­tas marca a dife­renza, con mar­cos cun P e un E, entre per­soas sepa­ra­das por ape­nas uns metros de terra. As nor­mas legais den­tro de cada un dos terri­to­rios con­fi­nan­tes con­du­cen a cotiáns dis­tin­tos, e os pobos que con­vi­ven nun mesmo nicho eco­ló­xico teñen que con­fron­tase con fei­tos tan sim­ples e sig­ni­fi­ca­ti­vos como: a mudanza da lin­gua ofi­cial, mudanza da hora, con pre­zos dife­ren­tes para os pro­du­tos, con outras ver­da­des ofi­ciais apren­di­das na escola, varios fes­ti­vos dis­tin­tos, incor­po­ra­ción a exér­ci­tos dife­ren­tes, dife­rente sala­rio mínimo ou sub­si­dio de desem­prego e, até hai pou­cos anos, con moe­das dis­tin­tas. E por iso que na fron­teira, as vidas dos indi­vi­duos con­fi­gu­ran cul­tu­ras das mar­xes, com­par­ti­das inde­pen­den­te­mente da liña de demar­ca­ción entre os Esta­dos. As con­fi­gu­ra­cións asu­mi­das polas cons­tru­cións de nacións na fron­teira, com­pli­ca­das pola exis­ten­cia de outra nación subes­ta­tal galega, léva­nos a comu­ni­da­des “reais” teci­das a tra­vés do cotián, coas súas divi­sións inter­nas, meca­nis­mos de cohe­sión e con­flito, aso­cia­das a for­mas de con­tacto eco­nó­mico irre­gu­la­res para os esta­dos cen­trais, coma o con­tra­bando de bens ou a pasaxe clan­des­tina de per­soas. O día a día pre­sén­tase zur­cido nas ruti­nas de con­tacto e na asun­ción dunha lóxica común entre veci­ños e dis­tan­ciada da que emana dos cen­tros de poder. O papel da uni­fi­ca­ción nacio­nal foi des­coi­dado até moi tarde na raia. O dis­curso en rela­ción aos esta­dos é mar­cado, no mundo rural, por unha acen­tuada des­con­fianza, exa­cer­bada na liña da fron­teira. O dis­tan­cia­mento cara o poder cen­tral e a inte­gra­ción do con­tra­bando nun dis­curso alter­na­tivo evi­den­cia a fron­teira como unha reali­dade que une, en detri­mento das lóxi­cas cen­trais. Aínda así, os que inte­gran as poboa­cións da marxe non con­fun­den as res­pec­ti­vas iden­ti­fi­ca­cións: os “por­tu­gue­ses”, os “gale­gos”, os “espa­ñois” son ter­mos con con­ti­dos ben demar­ca­dos, que non entanto non esca­mo­tean o que une local­mente. A ate­nua­ción da fron­teira na cons­tru­ción iden­ti­ta­ria non sig­ni­fica, así, que un sexa o outro. Está clara a asun­ción de que a manu­ten­ción dun nivel local de rela­cións che­ga­das, con certa inmu­ni­dade a liña de demar­ca­ción de nacións, debe ser­vir para con­se­guir van­ta­xes na rela­ción cos Esta­dos cen-trais. Cando se vive e tra­ba­lla na rexión fron­tei­riza e se ten en común a mesma acti­vi­dade, nun mesmo medio de pro­du­ción, crú­zase a fron­teira en busca dun ben ou dun pro­duto que fai falta, actí­vanse redes rela­cio­nais obxecto de uti­li­za­ción nos momen­tos de crise. A lin­gua que se volve común, e que deixa de ser o por­tu­gués, o galego ou cas­te­lán como os coñe­ce­mos, con­vér­tese dis­cur­si­va­mente nunha forma híbrida de con­tacto, con cada veciño a ade­cuar a per­cep­ción do outro o que enun­cia, mercé do reco­ñe­ce­mento común dos idio­mas res­pec­ti­vos. Este ali­cerce da dis­tin­ción local foi aba­lado por as alte­ra­cións dos últi­mos anos. O pro­ceso de des­ru­ra­li­za­ción ace­le­rado é coe­tá­neo á pene­tra­ción dos esta­dos na rexión, a tra­vés nor­mal­mente da exten­sión da esco­la­ri­dade. A par­tir da década de 1960 foron poten­cia­das as liga­zóns entre as zonas fron­tei­ri­zas e o estado cen­tral pola saída masiva de xente, polo pro­lon­ga­mento dos estu­dos e pola gue­rra colo­nial en Por­tu­gal. Até entón as pro­pias redes socias super­pu­ñan os veci­ños dun e dou­tro lado á vez que se des­ar­ti­cu­laba. Tanto nun lado como nou­tro da fron­teira o desen­vol­ve­mento dos pro­ce­sos cen­trais viría a ter gran­des seme­llan­zas, debido o “cos­mo­po­li­tismo do nacio­nal”, xa que a “nación” ten­tou ser unha inven­ción con tanto éxito que foi impo­sí­bel rexis­trar a patente. Para ase­gu­rar a comu­ni­ca­ción hori­zon­tal e ver­ti­cal no seo da nación espa­ñola, houbo que impe­dir os loca­lis­mos e as lin­guas poten­cial­mente des­agre­ga­do­ras, nun pro­ceso que implica o suborno das eli­tes locais para a adop­ción, máis ou menos rápida, da lin­gua nacio­nal. A cues­tión da lin­gua nacio­nal, menos pro­ble­má­tica do lado por­tu­gués, revís­tese dou­tra tex­tura no lado baixo con­trol do Estado espa­ñol, onde a apren­di­zaxe e a impo­si­ción do cas­te­lán como lin­gua nacio­nal visaba fun­cións polí­ti­cas de subs­ti­tu­ción dunha mis­ce­lá­nea de moda­li­da­des lin­güís­ti­cas. O galego era uti­li­zado por unha poboa­ción cam­pe­siña secun­da­ri­zada e a apren­di­zaxe do cas­te­lán reves­tíase dunha fun­ción polí­tica cen­tra­li­za­dora e inte­gra­dora, que o Estado espa­ñol non pode­ría desapro­vei­tar. A tra­vés da crea­ción dun Estado nación, da escola e dos medios de comu­ni­ca­ción de masas creá­ronse con­di­cións para a apa­ri­ción de espa­zos lin­güís­ti­cos máis ou menos homo­xé­neos. A escola coida da ins­tru­ción para a Nación, pola apren­di­zaxe da lin­gua, da his­to­ria e da xeo­gra­fía. Mesmo no caso do estado espa­ñol todos os fil­mes son dobra­dos, impe­dindo a audi­ción dou­tras lin­guas, estran­xei­ras ou das nacións subes­ta­tais, desem­pe­ñando un papel na afir­ma­ción dunha “comu­ni­dade ima­xi­nada”, hoxe esten­dida polas eli­tes locais. O distan-ciamento da agri­cul­tura, resul­tante da ace­le­ra­ción de pro­ce­sos glo­bais, detec­tá­beis nos move­men­tos migra­to­rios e nas actuais estra­te­xias de dous esta­dos, favo­re­ceu os núcleos urba­nos preto da fron­teira en detri­mento das aldeas, coa con­se­guinte rece­sión demo­grá­fica e eco­nó­mica. Do lado galego o éxodo veri­fi­couse a par­tir de aglo­me­ra­dos rurais, men­tres que do lado por­tu­gués se des­po­boa­ron as aldeas e as cida­des de fron­teira, tendo con­se­cuen­cias idén­ti­cas: a mar­gi­na­li­zação des­tas regiões raia­nas e a inca­pa­ci­dade de ultra­pas­sa­rem a reces­são demo­grá­fica e eco­nó­mica. Paula Godinho “Oír o galo can­tar dúas veces”

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