Autogestão urbana: a experiência anarquista em Barcelona (1936-1939)

[A] afirmação de que é impossível (ou, pelo menos, muito difícil) a existência duradoura e consistente de formas de organização social baseadas em princípios libertários, como a autogestão e a horizontalidade das relações sociais, é lugar comum nos meios de comunicação e no mundo acadêmico. Por isso, a importância de pesquisas que consigam resgatar experiências históricas concretas que demonstram a possibilidade real da criação de outras formas de organização distintas da sociedade capitalista. Não devemos tomar essas experiências históricas como modelos acabados que devem ser imitados ou aplicados, mas compreendê-los como fonte de aprendizado de onde podemos extrair lições e analisar limites e potencialidades. Um exemplo destas experiências foi a autogestão urbana implementada pelo movimento anarquista espanhol na cidade de Barcelona durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

 Após o início do conflito, grande parte da classe trabalhadora barcelonesa estava organizada na Confederação Nacional do Trabalho (CNT), um sindicato anarquista e o maior da Espanha naquele momento, e em organizações autônomas, como a Federação Anarquista Ibérica (FAI). Diante do colapso do aparelho estatal, as organizações libertárias tomaram para si a responsabilidade de organizar a vida cotidiana em relação aos serviços e à gestão do espaço urbano.

Inúmeros comitês revolucionários de bairros foram criados para lidar com problemas imediatos da população: distribuição de alimentos através da criação de armazéns e refeitórios coletivos, criação de pequenas milícias para cuidar da segurança, prestação de primeiros socorros para feridos, desenvolvimento de atividades educativas e culturais para crianças e jovens nas escolas e ateneus, organização de redes de ajuda mútua para cuidar de órfãos, idosos e crianças pequenas, limpeza das ruas, etc.

O desenvolvimento das atividades dos comitês implicava novos usos do espaço. Igrejas, prédios, casas, mercados, estabelecimentos comerciais, hotéis e restaurantes foram expropriados pelos trabalhadores para que os comitês pudessem desenvolver as ações que estavam sob sua responsabilidade. As igrejas que não foram destruídas e outros imóveis foram utilizados para inúmeras finalidades: funcionavam como armazéns, garagens, cinemas, escolas, enfermarias e creches, por exemplo. Casas, prédios e hotéis (geralmente os melhores e mais bem conservados) foram expropriados e se tornaram sedes das organizações dos trabalhadores, comitês, partidos e milícias. Era comum que restaurantes e hotéis fossem transformados em refeitórios coletivos onde a comida era oferecida de graça a desempregados, crianças e idosos e poderia ser consumida pelos trabalhadores por preços bem menores do que o habitual. Mercados, quitandas, estabelecimentos comerciais foram transformados em armazéns onde as pessoas poderiam comprar os produtos que estavam disponíveis e eram fornecidos pelos sindicatos e coletividades agrícolas ou industriais.

A hegemonia libertária permitiu que os trabalhadores efetivamente implementassem um vigoroso processo autogestionário nas maiores e mais importantes empresas de água, energia e transportes de Barcelona. As preocupações fundamentais dos sindicatos e trabalhadores engajados neste processo eram as seguintes: 1. Manter e, se possível, expandir os serviços prestados para o maior número possível de pessoas; 2. Reduzir as tarifas dos serviços; 3. Implementar mudanças técnicas e de gestão para aumentar a produtividade. Os maiores êxitos foram alcançados na manutenção dos serviços e na redução das tarifas, enquanto a ampliação dos serviços foi pontual e as mudanças técnicas e de gestão foram importantes do ponto de vista político e pouco contribuíram para um aumento efetivo da produtividade ou da eficácia dos serviços neste curto período de tempo. Parte dos serviços urbanos ligados às atividades mais corriqueiras e cotidianas também foram apropriados pelos trabalhadores, que implementaram a autogestão em diversos estabelecimentos de pequeno e médio portes, como padarias, barbearias, oficinas mecânicas, cinemas, estabelecimentos comerciais em geral. O principal legado da experiência anarquista espanhola foi demonstrar que a instituição de uma organização social inspirada nos princípios libertários é possível e não se trata apenas de uma utopia. Na Espanha, aproximadamente 1,9 milhões de pessoas estavam diretamente engajadas na construção de uma vida autônoma criada por elas próprias. A experiência demonstra a possibilidade real e concreta da autogestão econômica e política realizada pelos próprios trabalhadores.

Para maiores informações

RODRIGUES, G. B. Territórios libertários: a experiência anarquista de autogestão na cidade de Barcelona durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Revista Cidades. 2012, vol. 9 nº 15, p. 259-295. Presidente Prudente. Grupo de Estudos Urbanos. Editora Outras Expressões.

Glauco Bruce Rodrigues é Geógrafo, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense – Campos dos Goytacazes.

Ficha biblio­grá­fica
RODRIGUES, G. B. Autogestão urbana: a experiência anarquista em Barcelona (1936-1939). Geo­cri­tiQ. 10 de diciem­bre de 2013, nº 17. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2013/12/autogestao-urbana-a-experiencia-anarquista-em-barcelona-1936-1939/>

One thought on “Autogestão urbana: a experiência anarquista em Barcelona (1936-1939)

  1. Caro Glauco:
    É realmente importante importante falarmos das possibilidades de alternativas, até porque a participação não deve se reduzir à capacidade da população de (re)formar suas próprias instituições; nem de apenas agir como poder constituinte… é mais do que isso. Nesse sentido, é preciso pensarmos em processos que viabilizem a mudança juntamente com formas que lhe dêem sustentação.
    Marx acreditava que o ser político deve se organizar não apenas com base em uma coisa jurídica, mas a partir dos próprios seres humanos para intervir diretamente na sociedade. Isso nos aproximaria daquilo que denominou de “a verdadeira democracia”, já que traria à tona a comunidade no lugar onde havia antes a separação entre Estado e sociedade civil. Para tanto, devemos agregar autoatividade, autodeterminação, autonomia, autogestão, autogoverno e autoemancipação; somente assim poderíamos vislumbrar o desvanecimento do Estado.

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